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Miojo não se divide

Eu sempre acreditei que as coisas difíceis pudessem ao menos, virar boas histórias.

Não estou aqui falando das coisas terríveis ou traumáticas. Mas das coisas difíceis, que não são nem tão ruins, mas definitivamente não são boas.

Lembro que minha mãe contava histórias da infância no sítio para eu e minha irmã quando éramos pequenas, que eram de partir o coração. Tinha a história da banana-abóbora: o dia em que ela trocou uma batata doce que havia levado para o lanche da escola pela dita-cuja, e quando abriu a fruta, a danada era pura casca e um fiapo de banana. A essas alturas, a batata doce já fazia digestão na barriga do rapazinho mau-caráter (insiram aqui todo o meu ressentimento) que propôs tal troca descabida.

Tem também a história dos pés descalços: calçados eram artigo de luxo pra criançada do Anjo da Guarda, vilarejo da zona rural onde minha mãe morava. E nas manhãs de inverno, iam todos pisando sobre a geada a caminho da escola. Quando chegavam lá, ao menor sinal de sol a professora enfileirava as crianças sentadinhas na varanda com os pés virados para o astro-rei, para que pudessem aquecê-los. Eu nem podia escutar estes relatos que queria voltar no tempo e pegar minha mãe-menina no colo.

Tive minhas histórias também. Eu estudava em uma escola particular. Num certo dia, rolou alguma desorganização em casa (leia-se aqui também a falta de dinheiro) e fui pra aula sem lanche. Chegou à hora do recreio, eu não tinha o que comer. Escola particular, cantina privada, pague e coma. Não pague e não coma. Lembro-me da cara das minhas colegas quando munida de certo aptidão para a dramatização declarei que não havia nada para levar para o lanche naquele dia, e tampouco dinheiro pra comprar. Foi uma comoção generalizada, acho até que pagaram algo para mim. Quando contei para minha mãe, ela tratou logo de acalmar minhas sensações de miséria extrema ao declarar que no dia seguinte haveria sim bolachas ou algum sanduiche pra escola.

Mas nem tudo foi escassez.  Houve, a revelia, dias de uma satisfação embaraçosa: numa das raras vezes em que tínhamos dinheiro para comprar uma guloseima na saída do colégio, eu e minha irmã pudemos orgulhosamente dividir uma espiga de milho verde. Metade para cada uma, lá estava eu faceira comendo o tal milho no ônibus escolar de volta pra casa. Até que um amigo se aproximou e pediu uma mordida. Fiquei em choque, com os instintos mais sinistramente egoístas dominando minha existência infantil. Disse que esperasse um pouco e segui comendo. O prazer de comer o milho transformou-se em martírio, cada bocada me levava para mais perto do fatídico momento da partilha (lembremos que se tratava de meio milho). Fui adiante, anestesiada pela experiência, sofredora por antecedência. O apego e a gula me dominavam de tal forma que não conseguia parar para repartir. Cheguei a um limite derradeiro: quatro grãos de milho restavam na espiga. Entreguei o milho a ele, envergonhada. Não lembro mais se comeu ou não. Mas eu, nunca esqueci. Passei os anos seguintes olhando para cara do menino no ônibus escolar e me lembrando dos quatro grãos.

Já adolescente, vivi o dilema do miojo: toda santa vez em que me propunha a cozinhar tal iguaria brotavam pedintes (leia-se pai, mãe e irmã) em busca de uma garfada. Nada poderia me indignar com tamanha intensidade. Miojo é como porção de astronauta. É comida para um, não pra dois. O que dizer de três pessoas diferentes pedindo uma garfada? Com a experiência, desenvolvi minha estratégia. Sempre que o macarrãozinho-inimigo entrava no cardápio, interrogava a família perguntando se haviam mais interessados. Como as respostas eram sempre negativas, eu garantia meu álibi para negar a partilha.

O tempo passou, e cresci com a impressão de que cada coisa gostosa que não comi me fez apreciar ainda mais as delícias que a vida me traz hoje. Considero isso um aprendizado e também uma graça. Sei que ainda posso dar aquele colo à minha mãe-menina, a mim mesma e ao meu filho. Também posso dar todos os lanchinhos deliciosos que não tive. Que bom, e quiçá assim fosse pra todo mundo. Não dá pra compartilhar minhas memórias sem reconhecer o privilégio. A vida abundante trouxe tantos milhos verdes quanto eu queira devorar. Parece propício que depois de tanto tempo eu aprender a partilhar os grãos. Ainda que seja contando uma boa história. Agora, quanto ao miojo… Miojo não se divide.

Texto de autoria de Yara Rossatto do @escritoraeamae

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