Livros são asas

Livros são asas

Brincava de voar pela casa.

Até que declarou: “Preciso de asas”. E saímos em busca de algo adequado para o papel.

Entre tantos objetos, brincadeiras e devaneios da infância, há entre elas uma categoria quase sagrada para mim: os livros.

Lembro-me de criança: um livro para mim era o mundo. Amava folheá-los, cheirá-los, percorrer as páginas com os olhos na iminência de desvendar segredos traduzidos em palavras. Livraria sempre foi sinônimo de paraíso, ainda que as inúmeras feiras do livro que aconteciam em minha escola pudessem me entristecer um tanto, já que raras às vezes poderia eu me dar ao luxo de comprar um dito cujo.

Quando menina, os livros me transportavam para um mundo além de mim. Minha excitação era mesmo pelos mais grossos. Quando maior o número de folhas, maior o fascínio. Lê-los era como um gozo, chegar ao fim, o clímax. A intensidade da leitura era tamanha que conheci cedo aquilo que chamarei de ressaca-pós-fim-do-livro, ou quem sabe depressão-pós-leitura? Depois de tanto envolvimento, de dias vividos em uma realidade paralela, abruptamente encerrava-se a lua de mel, digo, a experiência. A sensação era de desajuste. Desvendado todos os mistérios, que sentido havia na vida aqui de fora? Era o fim de um casamento, não por incompatibilidade, mais por abandono. O livro, dono de si, seguiria sua busca por novas companhias. Quanto a mim, viúva de um marido vivo, restava a memória (e a ressaca) de ter vivido ao seu lado com fervor.

Certa feita estava eu munida de algum dinheirinho, presente de mãe que sabe ler uma filha apaixonada, em busca do meu eleito na feira do livro, aquela mesma da minha escola. Entre tantos, um que despertou algo de narcísico em mim chamou-me a atenção “Yara, o Violeiro e o Diabo”. Com o coração palpitando e uma meia coragem para já tão jovem negociar, consegui não sei bem como adequar o valor do livro ao valor que trazia comigo. Quem sabe o apelo de termos ambos o mesmo nome tenha suscitado alguma comoção…

Diferente de outros eventos, neste dia estava lá também o autor do livro. A dedicatória: “Um abraço e o desejo de que encontre seu violeiro, Yara”. Pronto, estava feita a profecia.

Passados mais de 20 anos na espiral do tempo, o violeiro, seus 37 instrumentos, duas cachorras e um filho moram todos comigo preenchendo a vida de canções e alguma bagunça dos diabos.

Profecia cumprida, o filho brinca de voar, encontra dois livros e diz: “Aqui estão as minhas asas, mamãe!” ao segurá-los embaixo dos bracinhos.

Sim filho, livros são asas.

Da tua liberdade em torna-los asas voei para dentro de mim e encontrei o mundo. Passarinho na gaiola fez um buraquinho… Voou, voou, voou, voou.

Voa, passarinho.  

Texto de autoria de Yara Rossatto do @escritoraeamae

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