Limões e Limosas

Limões e Limosas

Uma fadinha morre toda vez que uma criança pequena aprende a falar uma palavra corretamente.
Foi o que declarou uma amiga, enquanto refletíamos sobre essa habilidade impressionante (e desesperadora) que toda criança têm de começar a crescer e não parar nunca mais.
Caiu como uma luva.
Cada nova habilidade linguística bem incorporada pelo meu filho me traz uma pequena dose de orgulho e outra, um pouco maior, de desolação. É como se os resquícios de uma infância intocada me escorressem pelos dedos.
Nada mais poético aos meus ouvidos do que escutar “doi, tei, sete, nove, dez!”. A ausência do “erres” e “esses” chega macia aos meus ouvidos enquanto a incompletude da sequência numérica é o caminho percorrido livremente, sem fórmulas ou acertos.
A insistência dos avós em ensinar a contar corretamente, um martírio, a vitória da criança, minha derrota.
Morrem as fadinhas e morre todo um idioma nativo conhecido por uma única e sábia tradutora. A mãe.
Que habilidade mística seria essa que confere a mãe (não ao pai, a avó ou a tia) esse poder de compreender os sons rudimentares que antecedem a palavra falada? Há quem diga que é fusão-mãe-bebê, simbiose, conexão entre mãe e filho… Eu chamarei de mestrado.
O maior e mais profundo exercício de estudo que já pratiquei na vida foi decifrar o indecifrável ser que cresce diante dos meus olhos e atende por “filho”. Nada poderia ser mais complexo, avassalador, usurpador de mim mesma do que tal mini-pessoa digna de tese.
Meu HD interno processa com agilidade cada novo gesto, expressão, careta, palavra. Analisa e classifica o feito conquistado, inserindo-o em uma linha do tempo que vai do cérebro ao coração. Para novas palavras ditas corretamente, uma sirene dispara alertando sobre a passagem do tempo. Para palavras tão acertadamente incorretas, o deleite do aqui e agora.
O objeto de estudo é único e imprevisível, explorador nato de si e do mundo. Meu projeto de pesquisa, alheio a tudo isso, segue entre caminhadas pelo quintal, coletando limões e “limosas” caídas no chão, enquanto observo atenta e de coração pulsante sua filosofia natural.
A linha do tempo, assim como a tese, parece não ter fim.

Texto de autoria da Yara Rossatto da Escritora é a Mãe

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