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Eu não adoro você

“Eu não adoro você, eu adoro mais o papai”.

Toda mãe há de amargurar essas palavras. O ladrão de corações poderá ser o pai, a outra mãe, a avó, o vizinho ou até mesmo aquele personagem do desenho animado favorito.

Depois do medo da descoberta que os dois tracinhos trazem, algum meses ou anos separam-nos do dia em que cada pequeno sacrifício vivido em função destas ilustres criaturas revirará sua memória e entranhas como um ciclone tropical ao ouvir estas palavras.

Como ousa não me adorar mais? Eu!

EU?                                                                                

Que te carreguei no ventre, que senti mais sono do que poderia ser possível, que tive dores terríveis na pélvis, que vi meu rosto se transformar em um campo minado entre cravos e espinhas, que sentia você crescer dentro de mim ao mesmo tempo em que empurrava meu pulmão, que tive hemorroidas gestacionais, que te PARI, que vi meus peitos sangrarem, que chorei não por uma semana, não por quinze dias, não por um mês, mas por dois meses até que pudesse amamenta-lo sem sentir dor, que bebi litros de chá para ter leite, que fiz dieta restritiva em pleno puerpério para que você não tivesse alergia, que só usei decote em pleno inverno, que não sabia mais bem quem eu era, que apesar de carrega-lo incansavelmente não criei músculos em meus finos braços, que o amamentei em cada madrugada, que lavei fraldas de pano sujas de cocô, que não conseguia me olhar no espelho, que sei exatamente onde estão suas meias, calças, remédios, casacos, brinquedos, presentes, que traduzi cada palavra dita e incompreendida, que acompanhei sua não-adaptação escolar durante três semanas, que dei todos os colinhos e beijei cada machucadinho para sarar e que já ouvi o mantra mamãe mais do que qualquer outra coisa que tenha ouvido na vida…

Sim, eu.

Eu, a mesma que respondeu com todo o amor – e certo rancorzinho disfarçado – além de uma plácida expressão de serenidade:

“…Eu entendo filho [ciclone tropical por dentro] seu papai é mesmo adorável.”

Fim.

Texto de autoria de Yara Rossatto do @escritoraeamae

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