Escritora é a Mãe por Yara Rossatto

Escritora é a Mãe por Yara Rossatto

Silêncio

Fiquei sozinha em casa por algumas horas outro dia.

Foi uma experiência transcendental.

Sentei na escada para ver o dia indo embora, eu e eu. Pude notar com nitidez as cores sumindo do céu, o vento sussurrando nas folhas das árvores, os pássaros numa desordem organizada buscando um galho para dormir, e o mais fascinante, meus pensamentos.

Foi como reencontrar uma velha amiga. A voz que mora em minha cabeça veio faceira bater um papo sem fim enquanto o dia se despedia. Fiquei instigada com aquilo. Ela comentava cada coisa que eu via, traduzia minhas sensações nostálgicas em memórias daqui e acolá, me fazia perguntas e ia logo dizendo as respostas, enquanto eu assistia.

Fui levada nessa viagem interior como alguém que há muito tempo não põe os pés na estrada e de repente se vê num carro com uma guia extremamente entusiasmada que comenta tudo pelo caminho. E presenciei a viagem com fascínio.

Algumas paragens-pensamento me iluminaram. Primeiro, o fato de reencontrar essa voz. A voz-matraca-mental que passamos uma vida pensando que é preciso silenciá-la. E então surgiu o questionamento: se estou cá a ouvindo, com ares de reencontro, significa que até agorinha ela esteve quieta?

Bem, é fato que não consigo mais dar muita bola ou espaço pra dita voz no meu dia-a-dia, porque divido a vida com um rapazinho matraca que aprendeu a falar há menos de um ano e descobriu que não quer perder tempo. Ele fala do amanhecer a hora e dormir, sem parar, sobre tudo que vê, ouve, pensa ou deseja. É impressionante.

E mais impressionante foi perceber que minha voz, por generosidade ou falência, deu espaço para voz desse rapazinho ocupar. E inegável que ele venha ocupando bastante espaço desde o princípio… Em todas as esferas e partes de mim.

E então, quando o rapazinho em questão se ausentou, minha voz-mental pode se lembrar de si. Foi interessante reencontrá-la e bater esse papo, pois a conversa desvelou um entendimento que me encantou: gosto muito de ser mãe do rapazinho matraca. Gosto mesmo. Apesar dos pesares, dos desafios, das tretas, da canseira, da “dedicação total a você”. E gosto achando que os pesares são pequenos perto da delícia que é dividir a vida com essa voz incipiente, que olha o mundo com olhos de novidade e narra belezas já esquecidas.

Foi incrível reencontrar minha voz interna tagarela pra sentir falta da voz menorzinha ainda mais tagarela que hoje se faz tão presente e que ironicamente me aquieta, preenchendo os dias de um não silêncio tão cheio de significados. Talvez meus silêncios e presença mais verdadeiros se deem ali, em meio à tagarelice do cotidiano.

Texto de autoria de Yara Rossatto do @escritoraeamae

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