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Embatumado

“Que bolo gostoso, mamãe!” Diz meu filho sobre o bolo que fiz, e dessa vez saiu embatumado.

Sempre gostei de fazer bolos e contabilizando um ou outro desvio de percurso, os dito cujos costumar dar certo. Mas o fato é que boleiras pedem família grande. Quando éramos apenas dois em casa, volta e meia a iguaria punha-se a envelhecer sobre a mesa para logo virar comida de cachorro. Sorte a nossa, pensam minhas filhotas caninas.

Bem, isso tudo foi antes da revolução Solar. A criaturinha saiu, para completude da família, um belo comedor de bolos. Há um jeitinho só dele de falar cochichando, quando têm ideias geniais para por em prática: “Já sei o que a gente pode fazer depois de nanar… um booolo” arregalando os olhinhos e logo sorrindo. Se a receita do bolo dará certo, eu não tenho como dizer com certeza, mas que a receita para pedir bolo é infalível, esta é sim.

Fazemos juntos, com direito de que ele ligue o liquidificador, jogue a farinha na massa, e obviamente “lemba” a massa crua que resta na jarra, e que por ironia do destino, nunca será um bolo assado. Assada ou não, irá para barriguinha do menininho que faz questão de dizer “eu adoro lember”…

Sol é um adorador nato. Aliás, se tem uma coisa que o rapazinho adora dizer, é o quanto ele adora as coisas. “Eu adoro comer, eu adoro tomar banho, eu adoro ir à floresta, eu adoro nossa casa, eu adoro desenho, eu adorei meu submarino, minha casinha, o livro novo, eu adoro, eu adoro, eu adoro…” Quando termina de adorar, ele emenda logo num obrigado, “obrigaaaado”.

Diante disso, fico pra ascender aos céus. É uma lição de gratidão atrás da outra. Uma gratidão genuína, de quem sabe ser feliz com aquilo que tem de mais simples, veja-se a corrida comemorativa que ele faz quando anunciamos que o café da manhã será tapioca com ovo, considerando que o café da manhã é basicamente dia sim, dia não tapioca com ovo. A comemoração é igual: enérgica, exaltada, assim como a declaração, pela centésima terceira vez, que “tapioca com ovo é nosso café da manhã preferido, “biba”!” (leia-se viva!).

Presenciando a poesia do dia-a-dia que se repete diante dos meus olhos, nunca igual, sempre cheia de vida e potência, agradeço por aprender tanto enquanto ensino. Não há nada que impulsione a autoeducação com maior urgência do que um filho. Ou aprende-se, ou repreende-se.  Como repreender a vida em sua expansão?

Obrigada, obrigaaaada filho, por ser tão adorável. E também por adorar meu bolo embatumado e comê-lo com o mesmo entusiasmo que o bolo que a vovó trouxe outro dia, perfeito, e que mamãe tentou reproduzir sem sucesso. Ou com muito sucesso, se depender da sua acolhida e simplicidade.

Texto de autoria de Yara Rossatto do @escritoraeamae

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