E você nem existia

E você nem existia

Rotineiramente sou surpreendida pela sensação de espanto ao olhar para meu filho.

É como se eu não acreditasse que ele realmente existe. Sei que existe, mas quando o vejo só consigo ver o milagre.

Pensar que dois corpos que se fundem podem dar vida a um serzinho desses, em toda a sua complexidade, é no mínimo instigante. Mais do que isso… É inspirador.

Essa sensação me acomete especialmente nos momentos mais expressivos do Sol: quando se põe a falar pelos cotovelos sobre algo muito importante, quando explica energicamente (não sei a quem puxou) algo que não entendi, quando faz coisas engraçadas, quando dança, quando aprecia sua primária existência.

Parece que a vida me conta algo de seu Grande Mistério nesses momentos. Ele está aqui agora. E me lembro, com uma memória vinda de outro lugar, do nosso combinado, da nossa amizade e de nossa jornada.

Algumas vezes verbalizo: Você veio, não é mesmo, filho? Meu amigo querido… Pulsando nas entrelinhas nosso plano cósmico. E já tive o prazer de escutar essa vozinha, que nessas horas ressoa como mel das abelhas celestiais, responder: É, eu vim. Eu vim, mamãe.

Puft. Morri, acordei no céu e continuo vivendo.

E aí a vida segue seu caminho, sua rotina entre fraldas, brincadeiras mais ou menos animadas, arroz e feijão, soneca, piscina de bolinhas, risadinhas que terminam em choro, patrulha canina, plantas, ligações para os avós… E o descompasso genuíno que também existe, porque ainda há muito que se caminhar até a completa integração. Há uma vida inteira.

Mas ela volta para o eixo toda vez que o Universo sussurra em meus ouvidos sobre o milagre da sua existência e sobre a potência de ser testemunha, canal e caminho.

E pensar que você nem existia…

Texto de autoria de Yara Rossatto do @escritoraeamae

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