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A autoescola (ou “mamãe cagada)

Quando eu fiz 18 anos não ganhei um carro, muito menos a carteira de motorista. Na linha derradeira que deixaria meus 17 para trás, fui barrada na entrada do bar, já que até a meia-noite a maioridade ainda não havia chegado.

Voltando ao ponto, com 18 anos eu não aprendi a dirigir um carro. Quem sabe tenha me aventurado a dirigir outras coisas, ou vislumbrado um pedacinho do volante, tocado de leve no freio pra entender que desacelerar também é preciso. Sobre o manejo da embreagem e das marchas, não tenho dúvidas de que não aprendi nessa época. É preciso de tempo e alguma maturidade para pilotar a nossa vida.

Minha permissão para dirigir veio anos mais tarde.

Na surpresa de me descobrir grávida, conjecturei que precisaria urgentemente de autonomia pra carregar o bebê pra lá e pra cá, não somente em meus braços, mas confortavelmente instalado na cadeirinha enquanto berrasse por todo o trajeto.

E fui a única aluna gestante daquela turma de adolescentes dorminhocos. Só eu sei todas as corridinhas que dei antes das 7h da manhã de minha casa até o ponto de ônibus, com meu barrigão pesando na pélvis. Eu, a motorista e a cobradora. Uma dupla de mulheres que é de inspirar qualquer uma a correr atrás do busão, da carteira ou que seja.

Foi com 27 anos e 7 meses de gestação que precisei desistir temporariamente das aulas práticas por uma questão de seguridade e anatomia. Eu mal cabia atrás do volante. Fico me perguntando por que não desisti logo e me permiti dormir tanto quanto fosse possível, visto que os dois anos que me aguardavam seriam de uma realidade muito distante de “dormir até mais tarde”. Relevar é preciso, uma vez grávida de primeira viagem.

Com 28 anos e um bebê mamão me esperando em casa, voltei para este lugar da onde só queremos sair: a autoescola. Já reparou no trocadilho do nome? Quem sabe seja uma metáfora para o aprendizado que mais relutamos em fazer, o tal do autoconhecimento. “Conquiste-o e dirija sua própria vida”.

Conquistei a carteira aos 29, quando fiz o exame do DETRAN depois de passar quase um mês na Ilha do Mel, onde se quer existem carros. Tinha medo de esquecer se a cor verde era para parar ou seguir adiante. Nas trilhas na ilha, verde é sinal de siga em frente. Azul, pare para ver o mar.

Com 29, carteira na mão e um carro disponível, vivi o limbo de ter a permissão e não saber dirigir, o medo de enfrentar as ruas sem uma instrutora que maneje o freio e a marcha com a mão esquerda. Quem dera a gente pudesse ter essa figura do nosso lado pela vida a fora… Na iminência do erro, o ser abençoado nos impede de “fazer cagada”. Dizem que o anjo da guarda é pra essas coisas.

Com os mesmos 29, um tiquinho de confiança e um tiquinho de gente na cadeirinha, vivi pra ter coragem de tentar e conseguir. E também me apavorar por deixar o carro morrer ao mesmo tempo em que escutava uma doce vozinha vinda da cadeirinha no banco de trás dizer “mamãe cagada”. Relevem a impossibilidade da pequena criatura elaborar uma frase por completo e traduzam como ”mamãe fez cagada”, seguido de risadinhas.

Fiz mesmo filho, aos 18, 27, 29… E também em todos os anos não citados anteriormente. Seguirei fazendo. Até voltaria no tempo para viver tudo de novo, trocar cada fralda “cagada” sua e te ver crescer pra dizer isso. Só não perderia a chance de acrescentar mais cheiradas no cangote e no bafinho de leite. Mas de uma coisa não tenho dúvidas: acertei no parceiro de volante. Definitivamente, o melhor côcopiloto.

Texto de autoria de Yara Rossatto do @escritoraeamae

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