A arte de recomeçar – parte 3

A arte de recomeçar – parte 3

                Recomeçar era o nosso mantra. Esperamos o tempo de recuperação do meu corpo, mais os 6 meses de tentativas propostos pelo médico. Decidimos voltar à clínica, já que agora eu me enquadrava na categoria pessoas com problemas para engravidar. Recebi algumas guias de exame para fazer, a tranquilidade de saber que se duas vezes antes tinha dado certo, não seria diferente agora. Mesmo com uma trompa a menos, eu estava ótima.

                Fiz um exame para saber se havia alguma obstrução na outra trompa, exames hormonais, ultrassons. Claro que não seria tudo perfeito. Achamos uma obstrução na trompa direita! Enviei o resultado para o médico que me pediu para marcar uma consulta com outro médico da clínica, especialista em Fertilização in Vitro.

Pesquisei antes tudo o que podia sobre o resultado do exame. Falei com o meu marido e ouvi a seguinte frase: “Vai ter que tirar e depois fazer FIV? Paciência, se é assim que tem que ser, é assim que vai ser. Vamos fazer o que for preciso. E pronto”. Naquela hora eu queria chorar com alguém descontrolado como eu, mas a racionalidade dele me acalmou e é nela que me apego até agora. Se não temos como lutar contra os fatos, conhecendo o cenário, o que podemos fazer para atingir nosso objetivo? É assim que seguimos nossa vida, nos levantamos de cada queda e continuamos, com o olho no nosso objetivo.

                Novamente fui com uma amiga para a consulta com o especialista. Acharam que éramos um casal em busca de tratamento para engravidar. O propósito era esse mesmo, só que o parceiro era outro. Ouvi o que já sabia, santo Google!

“A obstrução poderia levar a outra gravidez ectópica e risco de morte. Além disso, o líquido que fica contido na trompa pode ser tóxico para o embrião. Então a trompa deveria ser retirada antes da FIV”.

Dessa vez a cirurgia não era de emergência. Agendei para dali um mês e uma semana antes tive como brinde minha primeira crise de cólica renal. A mesma dor aguda que senti quando tive o sangramento e descobri a gravidez ectópica. Não precisei fazer nenhum procedimento sobre isso nesse momento. Só adicionei pontos a minha fragilidade física e emocional pré-cirúrgica. Tudo ocorreu como o programado. Mas teve pitadas de maldade e despreparo da equipe médica.

Primeiro, durante a cirurgia chamaram meu acompanhante para a porta do centro cirúrgico no auto falante. Não era o procedimento que estava acontecendo com os demais pacientes. Meu marido quase infartou. Esperou meia hora até que alguém aparecesse para dizer que estava tudo ok.

Depois, quando eu estava na sala de recuperação da anestesia a enfermeira chegou perto de mim e disse: “foi você que tirou o útero?” E eu respondi ainda dopada, mas com convicção: “Não!”. Era a paciente ao lado. Eu sabia que não tinha ido até lá para esse tipo de procedimento, mas fiquei com uma pulga atrás da orelha. Será? Eu teria que perguntar ao médico. Ele só me visitaria no próximo dia. Cheguei ao quarto e fiquei ali com meu marido, depois recebi meus pais, ninguém falou sobre retirada de útero, eu também não perguntei.

No dia seguinte, um médico da equipe passou para me dar alta e passar as recomendações. Teve uma entrada triunfal, do mais genuíno mau gosto: “Olá Cassiana, tudo bem? Deu tudo certo ontem, nós tiramos o seu útero…” Meu olhar o fez parar e dizer a frase célebre: “Brincadeirinha! Está tudo certo com você, você quer engravidar né? Só esperar 3 meses e fazer a FIV que vai dar tudo certo!”

O que leva um profissional de saúde, ginecologista, que trabalha com mulheres que querem engravidar fazer esse tipo de “brincadeira”? Não consigo imaginar um contexto em que a péssima piada funcionaria. Lamento que ele continue atuando nessa área.

Apesar dele, segui minha vida, fizemos uma viagem em família para o litoral catarinense e novembro começava com mais expectativa. A cada dia que passava eu estava mais perto de ter meus filhos. O que mais eu podia querer?

No final de novembro e começo de dezembro haveria uma feira em Campinas e eu iria participar. Eu iria menstruar durante a viagem. Precisava ir até a clínica, pegar a medicação, as recomendações e começar a usar o medicamento no terceiro dia da menstruação.

Resultado, viajei com a medicação em um isopor. No último dia da feira apliquei a primeira dose do remédio pela manhã, senti os efeitos no banheiro do centro de exposições, vomitei, tive náuseas, tonturas, dormi um pouco no depósito em cima dos sacos dos meus produtos. Melhorei e voltei ao batente. A feira se encerraria naquele dia, tínhamos 1 hora para desmontar o estande, carregar o caminhão e chegar na rodoviária para pegar o último ônibus do dia para Curitiba. Eu precisava estar na clínica às 9h do dia seguinte.

Apliquei a dose da noite do remédio na barriga atrás do balcão enquanto meus tios, meu pai e amigos desmontavam meu estande. Das loucuras de ter que continuar a vida normal em meio a tratamentos. Nesse período estava fazendo um curso de vendas e negociação à noite. Por dois dias tive que sair da aula para aplicar as injeções no banheiro da escola. Em outra ocasião apliquei em um estacionamento na saída de um exame médico. Também apliquei no banheiro de uma reunião nos correios. FIV é assim, o remédio tem que ser naquele momento, às vezes dois na mesma hora. Remédios via oral, remédios injetados. Aprendi a misturar ampolas, encher seringas, trocar agulhas e furar minha barriga.

Na nossa primeira FIV eu tinha certeza de que daria certo até poucos dias antes da transferência. Em um dos exames para acompanhar meu endométrio, vimos uma imagem. Eu já sei onde fica tudo e como tudo deve ser nos exames de imagem. Aquele abaulamento no meu endométrio não estava certo. Depois de uma reunião entre os dois médicos da clínica, ouvi que era um indicativo de pólipo, mas muito pequeno e que não deveria interferir na transferência. Fiquei balançada, mas eles estavam dizendo que tudo bem, eu não questionaria, eu tinha urgência em abreviar a distância dos meus filhos.

Em dezembro de 2018, transferimos 2 embriões de 5 dias, e assim que terminou a transferência o Dr pediu para fazer uma oração. Depois fiquei 20 minutos sozinha no centro cirúrgico e só conseguia pensar naquilo. Até aquele momento, todos os médicos tinham nos dado certeza de tudo, procedimentos e resultados. Não cogitávamos falhas, erros, estava tudo indo bem. E se a questão era tão racional e certa, por que pedir para Deus ali?  Assim? O médico? Me senti em uma canoa à deriva. Se o médico que tinha tanta certeza pedia a Deus para que desse certo, eu estava ferrada!

Enquanto todos ao meu redor estavam confiantes, eu tinha medo, pois não me sentia grávida. O que se confirmou 1 dia depois do Natal. Choramos escondidos, abraçados, no chão, no sofá, no quintal… de soluçar e em silêncio.

Em 2019 iniciamos nova trajetória de fertilizações. Fui submetida à cirurgia para retirado do pólipo; a mais um procedimento completo com outro protocolo; uma coleta com exames específicos; um exame em que se enfia uma pinça do tamanho de uma agulha de tricô e se retira um pedaço do endométrio para análise, sem anestesia; à alegria de congelar um embrião; à dor de chegar para transferência e descobrir que ele não seria implantado. Confiamos, pedimos um tempo para o tratamento, retomamos, sofremos, sorrimos, gargalhamos em meio a choros compulsivos. E por que continuo? Por que eu não desisto?

Já me fizeram essa pergunta e eu a considero bastante despropositada. Você desistiria dos seus filhos? Você deixaria de fazer o que fosse possível para abraçá-los? Eu ainda não tenho meus filhos nos meus braços, mas estou cada dia mais perto de tê-los. Não enxergo como opção deixar de lutar por eles. Sou uma pessoa muito abençoada pelos amigos que tenho, pela família maravilhosa que Deus me deu, pelo companheiro incrível que tenho ao meu lado me dando suporte em cada dificuldade. Alternamos momentos de fragilidade e força, nos conectamos como nunca durante esses quatro anos na luta por vivenciar a maternidade e a paternidade. Já tivemos 7 filhos juntos, e temos muitos outros por vir.

Com um cenário desses, é óbvio que estarei sempre pronta para recomeçar. Recomeçar pelos meus filhos, pelo meu marido e por mim.

Seria muito mais bonito se eu pudesse dizer agora que estou com os meus filhos aqui em casa e que toda essa trajetória foi sofrida, mas valeu a pena porque fui recompensada. Uma das coisas chatas de compartilhar essas experiências é ter que lidar com a frustração do outro. Eu sei que é difícil para quem convive comigo e com o meu marido assistir às nossas quedas, nos ver sorrir e chorar repetidamente. É isso aí mesmo. Se serve de consolo, estamos bem, aliás, nunca estivemos tão bem.

Vai dar tudo certo, esse ainda não é o fim.

Texto de autoria da Cassiana Bassetto

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