A arte de recomeçar – parte 2

A arte de recomeçar – parte 2

Liguei para meu marido com bastante calma e expliquei que passaria para pegá-lo e que teríamos que ir ao laboratório. Eu estava bem, mas sabia que algo estava realmente muito errado. O exame deveria ficar pronto só na segunda-feira, porque diabos em 3 horas eu já tinha o laudo e uma intimação para ir até lá? Era certo: eu podia morrer disso.

Fizemos o percurso em silêncio até o laboratório. Cheguei, me apresentei, falei sobre a ligação e recebi um sorriso contemplativo. Depois desse, viriam muitos outros…  A secretária me entregou o exame imediatamente e me deu a recomendação: “Ligue agora mesmo para a sua médica”.

Sentamos na sala de espera e abrimos o laudo: entre imagens e dados técnicos, achei a informação que importava, a conclusão: imagem de gravidez ectópica rota, com focos de sangue. Embora fosse esperado devido aos últimos acontecimentos, fomos pegos de surpresa. Nos abraçamos, e esperamos a orientação médica: “dirija-se agora para o hospital X, leve esse e os outros exames, me mantenha informada”.

No hospital, me apresentei na recepção. Chorei ao explicar a situação e recebi mais um daqueles olhares. Então fui chamada para o setor ginecológico. Novamente tive o desprazer de ser atendida por uma plantonista péssima. Meu caso era comentado com todos os profissionais de saúde que passavam pela porta do consultório 2. Eu ouvia a conversa e me escondia nos braços do meu marido enquanto era apontada como um gorila de zoológico.

Aliás, precisamos falar sobre violência nos atendimentos ginecológicos das emergências. Ao longo de toda a minha jornada pela maternidade, encontrei profissionais ótimos, outros nem tanto, mas lembro com grande pesar dos péssimos. No mês anterior à descoberta da gravidez ectópica, passei por esse mesmo pronto-atendimento e fui atendida por uma profissional que se incomodou muito com a minha reação emocional diante do que parecia ser o aborto do meu segundo filho.

“Pare de chorar! Se controle! Se quando você fizer o próximo beta ele tiver baixado, era só uma anomalia genética. Não ia dar certo. A gravidez não ia evoluir”. Num momento em que eu sentia meu segundo filho escorrendo pelas minhas pernas; em que até motorista que me levou ao hospital fez uma oração para me acalmar e desejou o melhor para mim e meu filho, uma profissional de saúde, que tinha acabado de enfiar a mão na minha vagina para fazer o exame de toque, exigia que eu fosse equilibrada, que eu tivesse serenidade e que cogitasse que meu já amado filho fosse uma anomalia genética.

Sempre me pergunto se o mesmo aconteceria com uma mãe que perde um filho nascido. Ao longo das minhas perdas ouvi frases inacreditáveis de todo tipo de pessoa: religiosa, espiritualizada, próxima e distante. Algumas colocando a culpa das perdas na minha “falta de desejo pelos meus filhos”, algumas diminuindo a minha dor…

“Melhor perder agora que depois.”

“Vai ver que você nem estava grávida”

“Isso é muito comum, mês que vem você engravida de novo”

“Você tem filhos? Nascidos? Ah, então você não é mãe, você não sabe”

“Você precisa tomar cuidado com o que você pensa”

Todas essas brutalidades em forma de palavras me levam a pensar sobre o quanto as pessoas realmente se importam com o aborto. Porque, embora meus filhos não existam para as outras pessoas, para mim, com apenas 1 dia, 1 mês ou dois, todos eles, meus 7 filhos, existiram, foram amados, tem data de aniversário e são merecedores de espaço e orações. Desde 2016, não houve um único dia em que eu não pensasse neles. Alguns dias com dor, outros como uma memória distante, ou ainda com uma saudade profunda. Minhas crianças estão no céu, que bom que tem um ao outro para brincar e aprontar por lá.

Lógico que eu sabia que meu caso era raro, intrigante, porque apesar dos resultados incontestáveis dos exames, clinicamente eu estava ótima, sem dor, me movimentando normalmente. A questão é que eu tinha ido até o hospital em busca de uma solução, não de mais dúvidas. Ao final de 6 horas entre espera em uma cadeira super desconfortável e exames de imagem e sangue repetidos, ouvi de duas médicas que meu corpo estava absorvendo o embrião e que eu não precisaria fazer nada, só ir em casa e acompanhar com exames de sangue e imagem. Mesmo sem confiar, naquele momento eu queria acreditar nelas porque estava cansada demais para pensar.

Avisei minha médica e segui a sua recomendação de descansar. No outro dia, às 8h, recebi uma mensagem dela perguntando como eu me sentia, se eu tinha algum desconforto, sangramento ou dor. Não, eu não tinha. Então ela pediu que eu consultasse um amigo dela especialista em gravidez de risco naquele mesmo dia. Quando liguei para marcar o encaixe, a recepcionista já sabia o meu caso e me deu o horário, às 11h eu deveria estar na clínica. Me arrumei e fui.

Olhando os exames e ouvindo o laudo do pronto-atendimento ele disse que até poderia ser aquilo mesmo, mas me perguntou o que eu gostaria de fazer?

Meu Deus! E eu lá sabia o que fazer? Se existisse a opção voltar ou avançar no tempo, não tenho dúvidas de que essa seria a minha escolha, quase empatada com cavar um buraco e me esconder. Mas ali estávamos falando sobre fazer uma videolaparoscopia, com uma possível retirada de trompa. Devolvi a pergunta pedindo que ele se colocasse no meu lugar e decidisse pelo que achava melhor. Então ouvi uma frase que nunca vou esquecer:

“Seu caso não é urgente porque você está clinicamente bem, prefere fazer hoje ou amanhã?”.

Pensei na empresa, no meu marido, na minha casa e respondi: “Acho melhor amanhã”. Recebi as recomendações para o procedimento cirúrgico, comuniquei meu marido, minha família e amigos. Pronto, era isso.

Organizamos nossas agendas, fiz o que era possível na empresa. Fui com um motorista até o hospital. Fiquei na recepção sozinha até minha amiga chegar, ela me acompanhou até eu entrar no centro cirúrgico e ficou com o meu marido aguardando o fim da cirurgia e o parecer médico sobre o caso.

A anestesia tem um efeito prolongado em mim, demoro muito para voltar e quando volto, em geral, choro. Até 2016 eu sabia disso por uma endoscopia e uma cirurgia de vista, mas agora tenho propriedade para falar sobre as reações do meu corpo. Foram 2 videolaparoscopias, 5 coletas de óvulos, uma retirada de pólipo, uma histerossalpingografia com anestesia, e para não cair na monotonia, nesse ano de 2020, realizei 2 procedimentos cirúrgicos devido a cálculos renais. Mas ali, naquele momento, não sabia como eu reagiria.

Lembro do centro cirúrgico gelado, da mesa metálica, da roupa cirúrgica, de responder algumas perguntas para o anestesista, de pessoas me arrumando, de tremer de frio, de abrir os olhos em uma salinha de recuperação e de acordar no quarto e ver o meu marido. Naquele momento ele era a única pessoa que eu queria ao meu lado. “Como foi?”, eu perguntei. Choramos juntos quando ouvi que não conseguiram preservar a trompa.

Perder um pedaço do meu aparelho reprodutor doeu na minha alma. Eu já tinha chorado a perda desse filho um mês antes, não sofri pela retirada do embrião na cirurgia. Aliás, eu me sentia aliviada por não ter morrido com uma hemorragia interna, sentia que minha busca pela maternidade ganhava mais um obstáculo. Agora eu não estava mais completa, mas estava viva, então, ainda estava no jogo. E era nisso que eu me apegava.

Texto de autoria da Cassiana Bassetto

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