A arte de recomeçar – parte 1

A arte de recomeçar – parte 1

Sempre ouvi relatos sobre pessoas que tem uma sensação de quase morte e enxergam seus corpos como se não os habitassem mais. Achava um tanto estranho até que pude eu mesma experimentar ser espectadora da minha própria tragédia.

Em agosto de 2017, descobri que estava grávida e na madrugada seguinte tive um sangramento. Estava no Chile e passei a manhã de sábado com o meu marido no hospital Alemanha. Entre um exame e outro, circulava de cadeira de rodas pelos corredores do hospital, o que me deixaram claro ser um protocolo do país.

Voltando para Curitiba/PR, entrei em contato com a minha médica e iniciei uma série de exames para acompanhamento, hormônios para manter a gravidez e recorrentes visitas a pronto-atendimentos. Em pouco mais de 72 horas, tive o diagnóstico de aborto espontâneo, sem qualquer resquício do bebê.

Como havíamos marcado férias em Maceió/AL para o final do mês de agosto decidi seguir a vida. Claro que o luto da perda do meu filho me acompanhou, mas sentia que precisava abstrair.

Esperei a menstruação vir e sangrei imaginando que aquele sangue materializaria a morte do meu filho. Já tinha descoberto antes que, ao contrário do que imaginava, quando você tem um aborto espontâneo a menstruação não vem imediatamente. Não é como na novela. Primeiro você sangra seu filho. Depois o corpo se acalma e aos poucos volta ao normal. Aí sim a menstruação finalmente desce, com vontade, arrastando até sua alma.

Por minha experiência prévia, muito mal aproveitada, aliás, decidi seguir a vida. Aproveitamos as férias como quem realmente deseja descanso e paz, felicidade e alegria… Naqueles dias, a tristeza vinha, mas a natureza me chamava para vida, para sorrir e eu sorria, sem culpa alguma. No entanto, todos os dias saía um pouco de sangue escuro na minha calcinha, no meu papel higiênico, no meu biquíni. Era meu corpo me dizendo que algo ainda não estava bem e eu ignorando seus sinais.

Voltamos renovados, cheios de esperança. Afinal recomeçar estava se tornando um mantra para nós. Alguns dias depois, numa noite de qualquer, acordei com uma dor aguda no lado esquerdo da barriga. Fui ao banheiro e tive um sangramento. Eu que não sou de sentir dor, desci e preparei uma bolsa de água quente. Sabia que algo não ia bem. Na madrugada mesmo, enviei uma mensagem para minha médica. Minha consulta seria em 10 dias. Ela pediu que eu passasse no consultório para pegar uma guia de exame, assim já chegaria na consulta com o resultado. Peguei a guia, agendei o exame para a terça-feira da próxima semana.

Não tive mais nenhuma dor e nenhum outro sinal que pudesse me deixar nervosa. No dia do exame fui e expliquei toda a situação para o médico, que insistentemente pedia para eu repetir cada detalhe, do meu histórico do ano anterior até aquele dia da dor. Revisava datas e olhava exames antigos.

Aquela situação realmente não me parecia “normal”. Ele saiu da sala, eu me vesti e a enfermeira pediu que eu o esperasse na salinha de vidro ao lado. A salinha que eu já conhecia. A salinha das más notícias, onde eles te contam que você tem algo bastante preocupante e garantem que você vai ouvir todas as recomendações. Esse é um fato que descobri e depois se confirmou: se você fez um exame de imagem e simplesmente pegou o resultado como qualquer outro paciente, fique tranquilo, você não vai morrer, não disso, não nas próximas horas, não na próxima semana. Ao menos você tem tempo! Se te ligaram ou te levaram para uma salinha, tente manter a calma, boa coisa não é. Mesmo quando eles pensam no pior, o melhor ainda sim é muito, muito ruim.

Aguardei já em pânico, tentando controlar a minha respiração, meus batimentos, rezando e pedindo para Deus não me deixar chorar ali, na frente do médico. Ele voltou com o resultado do exame em mãos e com a cara de quem vai te contar uma grande tragédia, mas que não quer que você infarte com a notícia. Como se te manter vivo, nem que seja por mais alguns dias, seja algo que o faça cumprir seu juramento médico.

“Tentei falar com a sua médica, mas não consegui ainda, fique tranquila que vou continuar tentando. Preciso que você saia daqui e leve esse exame para ela. Sua trompa esquerda está muito grande e tem uma imagem parecida com a do ano anterior ali (não me recordo o termo correto)”, ele disse.

Não me lembro de ter questionado, nem feito grandes perguntas. Eu estava sozinha, e enquanto ouvia, lágrimas corriam pelo meu rosto, fazendo um caminho gelado, alternando olho esquerdo com o direito, em um ritmo calmo e constante, como as que caem agora enquanto eu escrevo.

Descobri que as lágrimas nunca acabam. Nosso poder de produzi-las é algo realmente impressionante. Não importa o quanto você já tenha chorado por esse ou outro motivo, sempre haverá um pouco de lágrima para cair dos seus olhos. Descobri também que, ao contrário do que eu imaginava, se você sofre com obstrução nasal, sinusite ou rinite, a secreção que sai durante o choro não é suficiente para limpar suas fossas nasais. Seria um benefício bastante útil do choro. Está aí algo para o criador repensar.

Enfim… chorando e meio paralizada, saí do laboratório e fui direto para o consultório da minha médica. Já tinha enviado a foto do exame por whatsapp para ela. Quando cheguei, me apresentei e ela saiu com duas guias de exame e uma urgência que me assustou um pouco, se é que isso ainda era possível. “Vá agora fazer esse exame de sangue e no caminho ligue para agendar essa ressonância, você precisa fazer o quanto antes”.

Usei as escadas e não o elevador. Quando cheguei ao térreo já tinha marcado a ressonância para o dia seguinte. Fui ao laboratório de análise clínicas mais próximo e colhi sangue para o exame de Beta HCG, o que mostra a quantidade de hormônio da gravidez no sangue. No Chile, quando fiz o resultado foi menor de 100 mui/ml e enquanto acompanhava o desenvolvimento da gravidez, não chegou a 200 mui/ml.

Em algum momento me disseram que eu poderia estar com uma gravidez ectópica, aquela em que o embrião se desenvolve fora do útero, que algumas pessoas religiosas insistem em dizer que há casos em que o bebê de desenvolve e nasce, mas que os médicos sabem que se ele crescer, a tuba ou o ovário explodem provocando uma hemorragia interna que muitas vezes, leva a gestante a óbito. Havia também outra possibilidade: um câncer raro que apresenta beta HCG positivo. Essa possibilidade foi levantada pois no ano anterior eu tinha tido uma gravidez que culminou em um aborto espontâneo. Quando fui fazer o exame para ver se estava tudo certo, apareceu uma imagem aumentada no que seria o meu ovário. Em resumo: salinha, choro, sozinha, exames, exames, imagem diminuindo, beta diminuindo… Porém, não fiz o exame de sangue até chegar a 0 mui/ml.

No entanto, eu sabia que o que estava acontecendo ali em 2017 era completamente diferente do que aconteceu em 2016 por 4 motivos. Primeiro, entre uma gravidez e outra eu já tinha feito teste de gravidez que tinha dado negativo, se fosse esse câncer, teria um positivo ali. Segundo, quando eu fui ao hospital no Chile, pedi para a médica verificar se havia algo no lado esquerdo, pois no ano anterior eu havia tido uma gravidez ectópica. Não tinha, mas naquela loucura, não encontrei o exame para mostrar. Quando comentei isso com o médico ele não quis confiar na qualidade dos equipamentos usados no Chile. Terceiro, não havia imagem alguma quando fiz as ultrassonografias no pronto-atendimento em Curitiba. Quarto, eu sabia! Eu simplesmente sabia.

No mesmo dia saiu o resultado do Beta HCG. Se antes quando eu tinha certeza de que estava grávida, o beta HCG não chegou a 200 mui/ml, agora, que eu já tinha chorado a morte do meu filho, estava quase 800 mui/ml. Como assim? Como com tão pouco hormônio eu sentia efeitos colaterais que me levaram a fazer o exame de farmácia e depois, tão mais grávida, eu não desconfiava que ele ainda estava ali?

Mandei o resultado para a minha médica que me pediu para fazer o próximo exame e avisar caso tivesse sangramento ou dor. Eu não tinha nenhum incomodo, o que tornava esse diagnóstico um pouco mais difícil.

Fui para ressonância em jejum, acompanhada por uma querida amiga às 13h da quarta-feira. Nesse dia, meu marido que trabalha numa cidade a 50km de Curitiba estava em treinamento a menos de 2km da minha empresa. Coisas que Deus faz e a gente só percebe depois.

Fiz o exame e quando saí, por volta das 15h, a moça me entregou o protocolo e disse “o resultado sai na segunda-feira a partir do meio dia”. Olhei para ela com uma cara de admiração e questionei sem ser muito enfática: “Tem certeza? Porque parece que isso é um pouco urgente”. Ela respondeu que sim, com um sorriso amigável.

Aceitei e saí de lá tranquila e faminta! Passamos no shopping mais próximo e devoramos um hambúrguer em meio a risadas e selfies para mostrar para meu marido, meus amigos e familiares que estava tudo certo comigo.

Cheguei na empresa às 16h30. Abri o computador e comecei a trabalhar.

Outro ponto relevante é esse aqui, quando a sua saúde ou de alguém que depende de você está em jogo, você descobre que, de fato, pouca coisa é realmente importante ou inadiável. Não existe agenda que resista à sensação da morte.

Eu já tinha combinado com meu marido que o pegaria no treinamento e voltaríamos juntos para casa. Ele me ligaria assim que estivesse livre.

Às 17h recebi uma ligação do laboratório pedindo para que fosse até lá ainda naquele dia para pegar o resultado do exame e receber uma orientação.

A partir desse momento sai do meu corpo. Tudo o que aconteceu a partir dali aconteceu como se meu corpo e minha alma estivessem separados. Como se meu corpo fosse uma marionete que ia apenas executando o que era ordenado.

Texto de autoria da Cassiana Bassetto

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